quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Insulto


   Chego em casa apressada. Como algo rápido. Arrumo o cabelo, tomo um banho e ajeito a maquiagem. Passo o creme e perfume mais caros. Coloco lingerie vermelha. Saio para comprar cigarros. 

   Retorno para casa e alguns minutos se passam, fumo um cigarro. Belisco mais alguma coisa. Cansada, deito-me na cama. Pego o celular e me distraio. 

   Os minutos não deixam de passar, belisco mais alguma coisa. O primeiro passo para encarar a realidade é tirar a lente de contato. Deito-me na cama novamente. Lamento por não ter colocado uma lingerie mais confortável. Pego o celular de novo e a distração não vem. 

   Os minutos transformam-se em horas. Penso em assistir um filme ou fumar mais um cigarro. Agradeço-me por ter saído para comprá-los, infelizmente não tinha aquela marca que eu tanto gosto, mas este já me serve. Fico indecisa entre fumar ou ver um filme, estou deitada confortavelmente na cama, faz um tempo gostoso hoje, mas acho que não me concentraria o suficiente para assistir algo. Já sei! Vou rever algum episódio da minha série favorita... Nesse momento vejo uma mentira escancarada, definitivamente preciso de um cigarro agora e a série depois para fugir da realidade. 

   Você não vale o perfume, o creme, a maquiagem. Mas, sabe o que mais me indigna? Por incrível que pareça não é a sua atitude porque de você nunca esperei e nunca quis grande coisa. O que mais me indigna é achar que eu acreditaria nessa desculpa chula. Céus isso é um insulto à minha inteligência! E isso eu não aceito. É simplesmente inaceitável!





quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Escárnio


Aproveitador, sabotador, conquistador

Falseador, amansador, molestador

Chucro, magrelo, mazelo

Infantil, vil, imbecil

Incoerente, indecente, intransigente

Errante, aspirante, frustante

Ridículo, homúnculo, dentuço

Bêbado, estrupício, mal visto

Peste, cafajeste, faroeste


 Obs: 10 das 28 você não sabe o significado...


No oceano




Eu sinto que estou apenas existindo

Eu não reconheço meu reflexo no espelho

Eu não sinto esperança

Afinal, o que é um fio de esperança além de uma gota num oceano profundo?

Eu afundo nas profundezas e emerjo na superfície

Eu finjo dor

Eu finjo amor

Eu finjo sorrisos

Eu finjo doença

Eu finjo conhecimento

Eu finjo que estou fingindo

Eu finco no chão

Eu caio

Eu levanto

Eu caio só para levantar novamente

Uma explosão suave se achega

Uma calmaria covarde toma espaço

Uma selvageria se esconde apenas para aparecer

Eu sinto tudo

E não sinto nada

Eu procuro o calor e sou derretida por ele

Eu tenho medo de me afogar

Mas eu afundo



Minha companheira




Olho folhas em branco

Sinto frio e não tenho cobertor

Falo e não tenho voz

Morro e não sou enterrada

Olho e não vejo nada
...
Estou só e tenho a companhia da solidão



My dear



Ato I

- Olhos com pintinhas verdes, cabelo castanho claro, pele clara macia.
- Alto, imponente. Mãos grandes e firmes me seguram. Lábios grossos e carnudos me beijam.
- Ombros largos e braços naturalmente fortes. Ah, dormir no seu peito é o melhor jeito de se dormir. 

Massagem em suas mãos
Noites de amor sem um som
Gemidos abafados
De um prazer inenarrável.

- Conversas, filmes, sonecas.  

Dias sem se ver
distância aumentando
E você outro rumo tomando.

- Choro, desespero, vontade de morrer! Sofrimento intolerável , eu não consigo dormir, eu não consigo comer, meu Deus, não consigo viver sem você! Parece que eu perdi um braço ou uma perna, você era o meu mundo, você era tudo!

   Uma nova vida começa a se abrir, você bate na porta, mas eu não encontro a chave, na verdade eu intencionalmente a joguei fora...

Ato II

- Olhos castanhos claros, cabelos negros como a noite, pele morena. Ah, os seus belos cabelos escuros, macios e volumosos eram definitivamente o seu maior charme.
- Abdômen definido.
- Ombros não muito largos. Dormir no seu peito é desconfortável, mas você adora.
- Sorriso maroto, inocência de uma criança, olhar de um adulto.

- Massagem em seus pés. Noites de amor barulhentas, prazer incalculável.
- Doces palavras suas. Brincadeiras, planos, sonhos e convivência.

Rotina pesando
Dinheiro faltando
E você acomodando.

Irritada, sobrecarregada e cansada.

- Raiva, incompreensão e decepção. Você foge e ao mesmo tempo toma uma atitude nobre.

Sofro,
mas não quero morrer
Não consigo dormir,
mas consigo comer
Tenho ciúmes,
mas não procuro você.

   Uma nova vida se abre e por enquanto nela está difícil de se viver...

A fera



   Sou uma força propulsora, sou um tsunami, um alavanche, um vulcão, um furacão. Eu causo o caos e a libertação. Tenho aparência assustadora. Sou temida, por isso, aprisionada. Eu destruo para que algo novo possa ser construído. Tentam me controlar, mas às vezes eu escapo e corro livre em passos largos arrasando tudo em volta, eu rujo, eu ataco.
   Eu cometo atrocidades. Na verdade, como fruto de atrocidades, eu apenas busco justiça. Sou verdadeira como a mais palpável agonia. Sou reprimida como o mais temido monstro. Sou incompreendida, então me escondo. Mas, qual fera pode passar o resto da vida presa em uma jaula por livre escolha?

   Existem duas de mim e uma delas é a fera.

O poder que não tenho




   Tenho vontade de voar até onde você está, te fazer enxegar, te fazer mudar. Tenho vontade de te encontrar, entrar na sua cabeça, na sua alma e te reestruturar . A inconformidade virou meu símbolo e você um enigma impossível de decifrar. Céus, como queria eu ser poderosa o suficiente para modificar você e te fazer crescer, mas então ai não seria você e sim eu refletida em você. Tô projetando tudo isso? Não sei...mas mesmo assim eu queria. Mas não posso, o quão difícil é lidar com  esse sentimento de impotência! Você me faz impotente, fraca, você me esgota. Me esgota até quando não está mais na minha vida. Você é a seca no deserto, mas ao mesmo tempo é aquela gota de água que falta. Você é enfim, o poder que eu não tenho...

Love me tender



Beije a minha mão
Me preencha com emoção
Faça-me uma canção

Me pega no colo com firmeza
Me acaricie com delicadeza
Me ame com destreza
Me chame de princesa

Abrace-me debaixo do cobertor
Sussurra em meu ouvido palavras de amor
Não sai do meu lado nos momentos de dor
Seja o meu protetor

Me ame com loucura e intensidade
Insira em seus pensamentos a minha imagem
Me leve para uma viagem

Faça meu coração bater fora do peito
Me ame com sacanagem e respeito

Me elogie todos os dias
Seja o alívio da minha agonia

Beije-me o pescoço
E agarra-me pela cintura
Com a mais tenra ternura

Me leve ao céu
Me faça querer vestir um véu
Prove comigo o doce amargo do fel 

Das coisas que você me fez



Você bebeu do meu rio até ele secar

Você olhou o meu vazio até ele transbordar

Você permitiu até eu errar

Você me deixou no frio até eu congelar

Você me deixou no calor até eu sufocar

Você me deixou no escuro até eu endoidar

Você me deixou com fome até eu dissecar

Você me deu esperança até eu amar

Você me deu trabalho até eu cansar

Você me irritou até eu te desprezar

Você me arrebentou até eu não poder mais me remendar 

Desencontro




Minha boca em outra boca, meu corpo enroscado em outro corpo.  Sua boca em outra boca, seu corpo entrelaçado em outro corpo.

Minha risada abafada, sua risada apagada da minha memória.

Minha cabeça no meu travesseiro, sua cabeça em outros travesseiros.

Meus olhos cruzam milhares de olhares, os seus cruzem outros milhares.

Minhas palavras voam ao vento, suas palavras diluídas no ar.

Minha voz não responde à sua, e a sua não procura a minha.

Meu carinho dispensado por aí, seu carinho encontrando outros ninhos.

Meu pensamento vai em direção ao seu, mas o seu toma um rumo diferente.

Meu coração grita sem parar, mas não é ouvido, é deixado berrando até perder o timbre.

Minha escrita procura te afetar, mas você se esquiva...

Desabafo de um detento



   Eu costumava ser livre, andava velozmente pela cidade sentindo a brisa suave da manhã, o sol ardente da tarde e vento reconfortante da noite. Ficava às vezes num canto da sala. Entretanto, eu era útil, eu tinha uma função importante. Costumava proteger pessoas.
Eu tinha uma rotina, mas era livre, via a vida, as pessoas, o trânsito. Algo que nunca havia imaginado passar me ocorreu há pouco, num momento de fúria, fui agredido, e arremessado para fora da minha detenção.  Mas como um bom samaritano eu voltei para a minha prisão, para cumprir a minha injusta pena.
   Não vejo mais a luz do dia e nem a imensidão da noite. O tédio e a reclusão resumem agora a minha vida. O que eu sou hoje? Um mero reflexo do que um dia eu já fui. Porém, algo inesperado aconteceu-me há dois dias, experimentei poucas horas de liberdade, o que aconteceu apenas porque fui necessário novamente. Fui usado e voltei para cela escura e apertada na qual me encontro. Mas, essa saída temporária foi incomum, havia um clima diferente no ar, sentimentos não tão nobres impregnavam a noite como uma praga. Desejei por um momento retornar ao meu triste retiro.
    Vocês podem estar se perguntando o que condenou injustamente alguém que protegia pessoas. Pois bem, irei contar-lhes. Foi um caso de amor. Sim, daqueles que não termina muito bem. E eu paguei o “pato". Afinal, alguém sempre tem que pagar,  não é mesmo?. E nesse caso, quem dançou fui eu. Fui deixado para trás, deixado em um armário escuro e entediante. Agora vocês não devem estar entendendo mais nada, mas calma, irei revelar minha identidade. Sou um capacete, os seguia onde iam, era um de seus protetores, mas o fim do amor causou também o fim da minha utilidade.

O Adeus




   O vento sopra lá fora e entra quente pela janela. Passos errantes sobem a escada. Vejo sorriso nos lábios e tristeza no olhar. Você abraça meu cachorro, me cumprimenta e senta. Sua boca abre, mas as palavras não saem. A minha boca abre e as palavras jorram.
   O relógio mostra o tempo transcorrido, mas não o tempo perdido. Eu falo sobre o quanto tentei, o quanto errei e o quanto você não me deu oportunidade de acertar. Olhares se cruzam, mas corpos estão há quilômetros de distância.  Te entrego seus pertences, você me dá um beijo úmido no rosto e faz o sinal da cruz na minha testa. Uma única lágrima é derramada. Uma última olhada na imensidão de um apartamento apertado é realizada.
   Ouço passos descendo a escada, ouço as batidas do meu coração, ouço a leveza da minha alma. Eu fico inteira e você ... parte inteiro.
Esse é o adeus que você não me deu, esse é o momento que você tirou de mim...

Trinta


   30, um número pequeno que tem me atormentado no último ano...” Ah mas você não é a única pessoa do mundo a fazer 30 anos, grande coisa, blá, blá...” Não sou a única, mas o meu jeito de sentir essa passagem é subjetivo e particular. Com uma dose de objetividade, claro, pois existe uma cobrança intrínseca aos 30, quando se pensa em uma pessoa na casa dos 30, se imagina alguém casado e com filhos  ou caminhando para isso (pelo menos) e em alguém que tenha alçando a tão almejada independência financeira. Mas, meu amigo quando isso não acontece aí que está o “problema", a gente se autoflagela por não ter aquele sonhado carro, a sonhada casa, a sonhada família...por não ter nem ao menos feito aquela sonhada viagem...e por não conseguir nem fazer aquela sonhada festa dos 30...
   É como se os 30 tivessem chegado para me lembrar de tudo aquilo que eu não realizei antes da sua vinda. Mas, me lembra também que eu tenho muitos sonhos ainda e devo batalhar mais ainda para realizá-los, me lembra que a vida é muito mais que um marcador de tempo , me lembra do tempo de Deus e da resignação necessária para suportar a espera, me lembra, enfim de tudo que eu ainda vou realizar!
   Uma coisa sua chegada fez, me libertou da corrente invisível que me pressionava a fazer tudo até certo momento da minha vida, agora eu posso seguir livre sem um cronômetro de realizações e com algumas doses de maturidade a mais.
Ah, já ia me esquecendo, ele me lembrou, acima de tudo, que o mais importante é o caminho e não  o fim, é na busca  que reside a vida. Se então é assim, estou cheia de vida, pois meu caminho apenas começou e não me importa quando irá acabar, eu quero atravessá-lo sem atalhos e vivê-lo sem medidas!

As paredes brancas pintadas



O silêncio na minha casa
As paredes brancas pintadas
A campainha não tocada

Um mundo novo invade minha sala
A TV há muito tempo calada
A rosa branca deixada

O cigarro acende e apaga
A escada agora morada

A roupa não jogada
A louça não aumentada
A geladeira não assaltada

A palavra não falada
A saudade não escancarada
A cama menos apertada

O reflexo não conhecido
O humor desaparecido
O sentimento não acolhido

A notificação não ativada
A vida não compartilhada
O momento enfim perdido
O amanhã já fora prometido