quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Desabafo de um detento



   Eu costumava ser livre, andava velozmente pela cidade sentindo a brisa suave da manhã, o sol ardente da tarde e vento reconfortante da noite. Ficava às vezes num canto da sala. Entretanto, eu era útil, eu tinha uma função importante. Costumava proteger pessoas.
Eu tinha uma rotina, mas era livre, via a vida, as pessoas, o trânsito. Algo que nunca havia imaginado passar me ocorreu há pouco, num momento de fúria, fui agredido, e arremessado para fora da minha detenção.  Mas como um bom samaritano eu voltei para a minha prisão, para cumprir a minha injusta pena.
   Não vejo mais a luz do dia e nem a imensidão da noite. O tédio e a reclusão resumem agora a minha vida. O que eu sou hoje? Um mero reflexo do que um dia eu já fui. Porém, algo inesperado aconteceu-me há dois dias, experimentei poucas horas de liberdade, o que aconteceu apenas porque fui necessário novamente. Fui usado e voltei para cela escura e apertada na qual me encontro. Mas, essa saída temporária foi incomum, havia um clima diferente no ar, sentimentos não tão nobres impregnavam a noite como uma praga. Desejei por um momento retornar ao meu triste retiro.
    Vocês podem estar se perguntando o que condenou injustamente alguém que protegia pessoas. Pois bem, irei contar-lhes. Foi um caso de amor. Sim, daqueles que não termina muito bem. E eu paguei o “pato". Afinal, alguém sempre tem que pagar,  não é mesmo?. E nesse caso, quem dançou fui eu. Fui deixado para trás, deixado em um armário escuro e entediante. Agora vocês não devem estar entendendo mais nada, mas calma, irei revelar minha identidade. Sou um capacete, os seguia onde iam, era um de seus protetores, mas o fim do amor causou também o fim da minha utilidade.

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